domingo, 27 de dezembro de 2009

Apesar de queixas da ONU, Tailândia deportará 4 mil laosianos

27/12/2009
O governo da Tailândia iniciará neste domingo a deportação de cerca de quatro mil laosianos da etnia hmong que, segundo as Nações Unidas, correm o risco de ser alvo de perseguição se voltarem ao Laos, indicaram fontes oficiais.

Os primeiros grupos de membros da tribo Hmong, que o regime laosiano aponta como responsável pela maior parte das ações de sabotagem e ataques contra suas forças, partirão nas próximas horas do campo de Huay Nam Khao, na província de Petchabun, 280 km ao norte de Bangcoc.

De acordo com oficiais da Polícia citados pela imprensa local, a primeira fase da repatriação acontecerá por meio de vários ônibus que viajarão escoltados pelas forças de segurança por cerca de 300 km até a cidade tailandesa de Nong Khai, na fronteira com o Laos.

O primeiro-ministro tailandês, Abhisit Vejjajiva, assegurou esta semana que a repatriação era imparável, em resposta ao pedido feito à Tailândia pela ONU para que interrompesse o processo.

A ONU lembrou ao Governo da Tailândia que a legislação internacional obriga uma nação a garantir que o retorno a seu país de pessoas reconhecidas como refugiadas ou que necessitam proteção deve ser sempre voluntário.

A União Europeia (UE) também expressou sua preocupação sobre a repatriação destes milhares de pessoas da minoria hmong que fugiram do Laos para refugiar-se na Tailândia.

A minoria hmong, cujos membros formam comunidades disseminadas pelas montanhas do Laos, Mianmar (antiga Birmânia), Tailândia e o sul da China, lutou ao lado das forças dos Estados Unidos até o final da guerra, em 1975.

Em 2003, os EUA acolheram cerca de 14 mil pessoas da tribo Hmong que se encontravam na Tailândia, mas desde então, outros oito mil cruzaram a fronteira tailandesa com o Laos para tentar conseguir asilo em um terceiro país.

A ONU pediu às autoridades tailandesas mais tempo para encontrar uma solução, como a de outros países que estejam dispostos a aceitar os refugiados, de maneira que se respeite o princípio internacional que impede as repatriações forçadas.

No entanto, o governo da Tailândia afirma que um estudo realizado com esses refugiados indica que a maioria deles emigrou do Laos por motivos econômicos, e que apesar da preocupação internacional, nenhum país mostrou interesse em aceitá-los.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

MSF pede que governos europeus respeitem imigrantes e postulantes a asilo

Publicada em 16/12/2009 00:00

Ás vésperas do Dia Internacional do Imigrante, organização chama a atenção para péssimas condições de vida e violência enfrentadas por essas populações

Imigrantes ilegais e requerentes de asilo estão enfrentando o fardo das políticas cada vez mais restritivas que afetam enormemente sua saúde física e mental. Fugindo de conflitos, pobreza ou violações diversas de direitos humanos, eles enfrentam uma longa e perigosa jornada até a Europa. Ainda assim, quando finalmente chegam ao continente, muitos são submetidos à detenção prolongada, condições de vida deploráveis e falta de acesso a cuidados de saúde. Outros continuam presos fora da Europa ou são interceptados e enviados de volta aos países onde sua saúde e vidas podem estar em risco. Às vésperas do Dia Internacional de Imigrantes, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) pede que os legisladores de toda a Europa respeitem a vida e a dignidade dos imigrantes e postulantes a asilo e que melhorem seu acesso a serviços básicos, entre os quais abrigo e atendimento de saúde.

As equipes de MSF atendem imigrantes e postulantes a asilo em diferentes estágios de sua jornada. Em países de origem, como Somália, Afeganistão, República Democrática do Congo e Nigéria, MSF trata as consequências médicas da violência e pobreza. No Marrocos, Grécia, Malta, Itália e França, as equipes médicas da organização oferecem atendimento médico e psicológico para os que sobreviveram a viagem – muitos enfrentam difíceis travessias por deserto ou mar, são sujeitos à violência e abuso, são presos e explorados ou são vítimas de traficantes e contrabandistas. Menores desacompanhados e mulheres, muitas das quais grávidas, estão aumentando entre os que fazem a viagem.

As práticas de controle de fronteira implementadas pela União Européia (UE) ou estados membros individualmente deixaram muitos imigrantes sem documentos e postulantes a asilo presos nos subúrbios da Europa por muito tempo ou fizeram-nos voltar para os lugares de onde vieram. Em Marrocos, imigrantes e postulantes a asilo que tentam entrar na UE frequentemente vivem sob condições precárias e degradantes e são vítimas de violência e exploração. Entre 2003 e 2009, as equipes de MSF no Marrocos atenderam 4 mil casos de violência. Na Itália, a organização foi forçada a retirar suas equipes de Lampedusa após o significante declínio no número de pessoas que chegavam à ilha. Desde que o governo da Itália implementou políticas mais duras, no início deste ano, barcos com imigrantes e postulantes a asilo estão sendo cada vez mais interceptados no mar e enviados de volta à Líbia, expondo as pessoas novamente à violência.

Os que conseguem chegar na Europa frequentemente enfrentam detenção prolongada e sistemática em condições terríveis. Apesar do grave impacto disso na saúde física e mental, o acesso a cuidados de saúde é limitado e o apoio psicológico frequentemente não existe.

Em Grécia e em Malta, o trabalho de MSF nos centros de detenção para imigrantes ilegais e postulantes a asilo revelou altos índices de depressão, ansiedade e desordens pós-traumáticas. “Nos centros de detenção observamos superpopulação e terríveis condições de higiene. Além disso, ser detido sem ter cometido nenhum crime e não ter certeza sobre o que acontecerá no futuro é extremamente frustrante”, afirma Christos Papaioannou, coordenador de terreno de MSF na Grécia.

Quando a detenção acaba, a perspectiva é confusa para muitos e o acesso a cuidados de saúde continua incerto. Mesmo quando os cuidados de saúde estão disponíveis, as barreiras de linguagem, falta de informação e medo de serem deportados fazem com que os imigrantes desistam de pedir ajuda. Na França, MSF oferece apoio psicológico para a maioria dos postulantes a asilo reconhecido. Muitos sofrem de desordens psicológicas graves como resultado da violência ou da perseguição em seus países de origem, a difícil jornada e falta de abrigo na França. Desde 2007, a organização realizou mais de 7 mil consultas em Paris – metade delas envolvendo atendimento psicológico.

"Nossa experiência de trabalho em diferentes estágios de sua jornada nos dá uma amostra de seu prolongado sofrimento. Essas pessoas vulneráveis passam por uma viagem muito difícil, na qual frequentemente enfrentam violência e abuso. Quando finalmente chegam à Europa, esperando que seja o fim de uma série de eventos traumáticos, eles são recebidos com detenção, péssimas condições de vida, acesso limitado a cuidados de saúde e exclusão da sociedade. É fundamental que as políticas de migração na Europa respeitem a vida e a dignidade desses indivíduos e melhorem as condições de acesso a atendimento médico, incluindo apoio psicológico", defende Liesbeth Schockaert, consultora de assuntos humanitários de MSF.

http://www.msf.org.br/Noticia.aspx?c=1054

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Supremo abre brecha para Lula ser responsabilizado no caso Battisti

17.12.09
Fonte: Espaço Vital
www.espacovital.com.br
(Lei 9610/98)

O Plenário do STF reafirmou ontem (16) que cabe ao presidente da República a decisão de extraditar ou não o ex-ativista Cesare Battisti à Itália. Apesar da maioria, o ministro Eros Grau abriu brecha para que o caso possa ser reaberto no futuro, caso Lula decida manter o ex-terrorista no Brasil e, por consequência, descumprir o tratado de extradição firmado entre brasileiros e italianos em 1989. A retomada da análise do caso Battisti ocorreu após o julgamento que, em 18 de novembro, decidiu, por cinco votos a quatro, extraditar o extremista italiano.

Ontem (16), o STF manteve a decisão de que a palavra final cabe ao presidente da República, com a ressalva de que ele pode ser eventualmente responsabilizado se não seguir a legislação internacional e enviar à Itália o ex-integrante do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC).

Assinado em Roma em outubro de 1989, o Tratado de Extradição entre Brasil e Itália prevê que o governo entregue o extraditando em um prazo de 20 dias a partir do comunicado oficial entre os países. Em casos justificáveis, a data de envio da pessoa a ser extraditada pode ser prorrogada por mais 20 dias.

"A decisão não vincula o presidente da República (não o obriga a cumprir a decisão do STF de extraditar Battisti). As consequências disso (de uma violação ao tratado de extradição) são outro capítulo", disse o ministro Cezar Peluso, relator do caso.

Para o advogado Antonio Nabor Bulhões, que representa o governo italiano no pedido de extradição de Cesar Battisti, a decisão do Supremo de abrir brecha para uma eventual responsabilização de Lula é uma vitória a favor do envio do ex-terrorista a seu país de origem.

De acordo com o jurista, "o presidente Lula pode responder junto ao Congresso brasileiro ou até à comunidade internacional pela desobediência ao tratado de extradição".

No desdobramento de ontem, o ministro Eros Grau disse que "o presidente tem a possibilidade de entregar ou não o extraditando - e o ponto que precisava ser esclarecido é que, no meu entender, o ato não é discricionário - não é obrigatório- , porém há de ser praticado nos termos do direito convencional".

Virada de mesa
Ao analisar a questão de ordem levantada sobre o papel do presidente Lula na extradição, o ministro Marco Aurélio Mello acusou a discussão de ser uma "virada de mesa" por alterar o entendimento que já havia sido tomado no julgamento da extradição de Battisti e abrir espaço para que o presidente da República seja responsabilizado caso não siga o tratado internacional e extradite o italiano.

"A questão de ordem é direcionada ao resultado que interessa ao governo da Itália; é uma virada de mesa", disse o ministro.

Leia como o STF noticiou o desdobramento
Em matéria publicada ontem (16) em seu saite, o STF anunciou que "Plenário retifica proclamação de resultado do caso Battisti e esclarece que presidente deve observar o tratado Brasil-Itália".

O texto prossegue."O Plenário do STF decidiu ontem (16), por votação majoritária, retificar a proclamação do resultado do julgamento do pedido de extradição do ativista político italiano Cesare Battisti, formulado pelo governo da Itália.

A decisão foi tomada na apreciação de uma questão de ordem levantada pelo governo italiano quanto à proclamação do resultado da votação, no dia 18 de novembro passado. A proclamação dizia que, por maioria (5 x 4), a Suprema Corte autorizou a extradição, porém, também por maioria (5 x 4), “assentou o caráter discricionário” do cumprimento da decisão pelo presidente da República. Ou seja, que cabia ao presidente da República decidir sobre a entrega ou não do ativista italiano.

Pela decisão de ontem, ficou determinado que será retirada da proclamação do resultado a discricionariedade do presidente da República para efetuar a extradição e constará que ele não está vinculado à decisão da corte que autoriza a extradição.

A questão de ordem suscitada pelo governo italiano dizia respeito ao voto do ministro Eros Grau e provocou discussões quanto a seu cabimento. Os ministros Marco Aurélio e Carlos Ayres Britto, votos vencidos quanto à retificação da proclamação, sustentavam o não cabimento da discussão, antes da publicação do acórdão.

Segundo eles, o governo italiano deveria esperar a publicação do acórdão (decisão colegiada) para - se considerar que há erro, omissão ou contradição na decisão da Suprema Corte - opor embargos de declaração.

O ministro Cezar Peluso, no entanto, informou que a questão de ordem quanto à proclamação, em caso de erro, é cabível no prazo de 48 horas após a proclamação, de acordo com o artigo 89 do Regimento Interno da Corte, e que o pedido foi formulado tempestivamente pelo governo italiano.

Na sessão de ontem, o ministro Eros Grau repetiu o voto proferido durante o julgamento do pedido de extradição e disse que não era preciso mudar uma só palavra nele. Recordou que, inicialmente, votou-se o cabimento da extradição. Disse que votou contra, juntamente com os ministros Marco Aurélio, Cármen Lúcia e Joaquim Barbosa.

Em seguida, conforme recordou, votou-se se a decisão do STF vinculava o presidente da República, ou seja, obrigava o presidente a extraditar Battisti. Seu voto foi que não vinculava, sendo que também os ministros Marco Aurélio, Cármen Lúcia e Joaquim Barbosa, além do ministro Carlos Britto, votaram no mesmo sentido.

“O presidente da República tem a possibilidade de entregar ou não o extraditando”, afirmou o ministro Eros Grau. “Nesse ponto, eu acompanhei a divergência do ministro Marco Aurélio, do ministro Carlos Britto, no sentido de que o presidente pode ou não determinar a extradição”.

“O único ponto que precisava ser esclarecido é que, no meu entender, ao contrário do que foi afirmado pela ministra Cármen Lúcia, em primeira mão, o ato não é discricionário, porém há de ser praticado nos termos do direito convencional”, observou o ministro Eros Grau, lembrando que, neste ponto, seguia jurisprudência firmada por voto do ministro Vítor Nunes Leal (aposentado), em outro caso de extradição.

O ministro disse querer deixar claro, "para evitar confusão", que o resultado é o seguinte: “eu acompanhei, quanto à questão da não vinculação do presidente da República à decisão do tribunal, a divergência; mas, com relação à discricionariedade ou não do seu ato, eu direi: esse ato não é discricionário porque ele é regrado pelas disposições do tratado”.

Entretanto, da proclamação constou que cinco ministros teriam votado no sentido de que o cumprimento da decisão é um ato discricionário do presidente da República. E é aí que o voto do ministro Eros Grau divergiu. O relator, ministro Cezar Peluso, chamou atenção para este fato, observando que o voto de Eros Grau não se encaixava em nenhuma das duas correntes.

O ministro Eros Grau confirmou que seu voto foi no sentido de que a execução da decisão do STF, ou seja, a entrega de Battisti, não é um ato discricionário do presidente da República. No entender dele, não vincula o presidente à decisão do STF, mas o presidente tem que agir nos termos do tratado de extradição entre Brasil e Itália, firmado em 17 de outubro de 1989 e promulgado pelo Decreto nº 863, de 9 de julho de 1983.

“O presidente autoriza ou não, nos termos do tratado”, observou o ministro Eros Grau.

Segundo o ministro Cezar Peluso, o presidente da República somente pode deixar de efetuar a extradição se a lei o permite. E entre essas hipóteses, conforme lembrou – e isto constou também do seu voto –, estão basicamente duas:

1) se o Estado requerente não aceitar a comutação da pena (na extradição, o país requerente só pode aplicar penas previstas pela legislação brasileira);

2) quando ele pode diferir a entrega, após processo pendente no Brasil contra o extraditando".

Acnur pede que programa da UE não prejudique proteção a refugiados

De Agencia EFE
Genebra, 11 dez (EFE)

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) manifestou nesta sexta-feira sua satisfação com a aprovação do Programa de Estocolmo da União Europeia (UE), mas alertou que este não deve se transformar em um empecilho para os princípios de proteção dos refugiados.

"O Acnur dá as boas-vindas ao Programa de Estocolmo, mas ao mesmo tempo pede à UE para que o controle da migração não ofusque os princípios de proteção dos refugiados", disse em entrevista coletiva o porta-voz da instituição, Andrej Mahecic.

O Programa de Estocolmo estabelece um conjunto de medidas para a área de Justiça e Interior que deve ser implantado durante o período 2010-2014 e que inclui a gestão da migração.

Segundo Mahecic, o Acnur está satisfeito com o fato de que a UE tenha expressado seu objetivo de desenvolver uma política de asilo comum que aplique a Convenção de Genebra sobre os refugiados.

Além disso, o porta-voz disse que a agência das Nações Unidas se põe à disposição das autoridades europeias para trabalhar no futuro escritório de Asilo Europeu, "que deveria se concentrar em promover a qualidade e a coerência das decisões sobre asilo".

Neste sentido, o Acnur espera que as medidas incluídas no Programa de Estocolmo levem a uma maior liberdade de movimentos para os refugiados.

Por outra parte, Mahecic pediu mais compreensão e ajuda para países de fora da UE que acolhem grande quantidade de refugiados.

A próxima Presidência rotativa da União Europeia (UE), que começa em 1º de janeiro e será ocupada pela Espanha, será a responsável por aprovar o plano de ação do Programa de Estocolmo e seu calendário.

O uso de um sistema único de vistos em toda a UE, a criação de um registro comum de entradas e saídas e a criação de uma política de imigração e asilo comum entre os 27 países são alguns dos objetivos.

Atenas protesta contra número de refugiados enviados pela UE à Grécia

Autor: Ruth Reichstein
(sv)Revisão: Augusto Valente

Fonte: DW

Governo grego tenta revogar diretriz da UE, segundo a qual um refugiado só pode pedir asilo no país pelo qual entrou no bloco. Isso faz com que muitos desses refugiados sejam enviados de volta à Grécia.

"Nós nos casamos sem a permissão de nossa família, por isso tivemos que deixar nosso povoado. Os anciães não estavam de acordo com nosso casamento. Minha mulher já estava prometida a seu primo. Se tivéssemos ficado, também nossa filha iria ser obrigada a se casar contra sua vontade. Por isso revolvemos partir", explica Zimarai Ahmadi, refugiado afegão na Grécia, que saiu de seu país há oito anos com a mulher e duas filhas.

A família entrou há dois anos na União Europeia pela Grécia, mas não permaneceu no país, tendo requerido asilo na Áustria. Um ano mais tarde, contudo, as autoridades austríacas enviaram os afegãos de volta para a Grécia, seguindo uma diretriz estabelecida pelo Acordo de Dublin, segundo a qual um requente de asilo só pode entrar com seu pedido de permanência no bloco no país pelo qual entrou na UE.

No caso específico dos Ahmadi, isso significou que a família foi obrigada a regressar a Atenas para requerer asilo na UE. Na capital grega, no entanto, não há mais lugar em alojamentos para refugiados, e a maioria das pessoas nessa condição acaba vivendo na rua, sem abrigo.

Longas esperas
Para Alexia Vassiliou, advogada do Conselho Grego de Refugiados, uma ONG que presta consultoria gratuita a requerentes de asilo, "faltam possibilidades de abrigo para essas pessoas.

Recebemos na Grécia aproximadamente 20 mil requerimentos de asilo por ano e somente dispomos de 800 leitos. Esse número já demonstra o tamanho do problema. Além disso, ainda há os casos decorrentes do Acordo de Dublin, que não são tratados preferencialmente. A família Ahmadi, por exemplo, já está esperando há mais de um mês por um lugar. Essa é a regra e não a exceção", descreve Vassilio.

Os quatro membros da família encontraram abrigo no sótão de um prédio antigo em Atenas. Em tese, eles têm direito, segundo acordos internacionais, a um auxílio para a sobrevivência. Na capital grega, contudo, estão entregues ao destino e têm que pagar 150 euros pelo abrigo de seis metros quadrados, dinheiro que pegaram emprestado com amigos.

Acordo desatualizado
O recém-eleito governo do país prometeu melhorar a situação das famílias de refugiados, porém Spyros Vougias, vice-ministro de Proteção do Cidadão, acredita que a responsabilidade não está apenas nas mãos dos gregos, mas sim de outros países da UE.

"O acordo de Dublin não é muito justo do ponto de vista atual. A situação era possivelmente outra no momento em que o acordo foi assinado, mas já mudou há muito tempo. Recebemos muitos refugiados que nem querem ficar na Grécia, mas sim ir para outro país europeu. Não podemos assumir sozinhos a responsabilidade por eles. Por isso, precisamos de uma diretriz, de um acordo que divida esse peso entre todos os países do bloco", reclama Vougias.

Auxílio imediato
A maioria dos países da UE, contudo, se apega com todas as forças ao Acordo de Dublin. Os refugiados não podem esperar por muito tempo, pois precisam de ajuda imediata e in loco. Os Ahmadi, por exemplo, tinham um horário marcado para entrar com o requerimento de asilo há várias semanas, mas depois de terem esperado por três horas no dia em questão, foram informados de que teriam que voltar no fim de dezembro.

Mesmo assim, as chances de asilo para a família são poucas. No último ano, a Grécia aceitou apenas um único requerimento de asilo de uma família afegã. Nesse sentido, os gregos ocupam o último lugar na lista dos países europeus. Na Alemanha, por exemplo, as chances de um requerente de que seu pedido de asilo seja aceito são, em média, de 70%.

"Mesmo não estando na prisão, temos a sensação de estarmos confinados. Não podemos sair, estamos presos sem grades", diz Simin Ahmadi. Sua meta continua sendo a de viver na Áustria, onde entraram com uma queixa contra a deportação para a Grécia, num processo que ainda corre. Para a família, um mínimo de esperança de uma vida em liberdade.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Refugees United Brasil

Refugiados temem o fim do programa de reassentamento

Posted: 28 Nov 2009 03:56 PM PST



Das cinco famílias de refugiados palestinos que moram em Venâncio Aires, uma delas manifesta a intenção de permanecer no Brasil pelo resto da vida. As outras quatro se organizam para reivindicar direitos e deveres no Programa de Reassentamento Solidário na sede do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), em Brasília. Responsável pelo processo de integração, o Acnur está prestes a suspender os benefícios e todo tipo de auxílio aos grupos, conforme acordado há quase dois anos. É justamente esse rompimento que preocupa a família de Ibrahim Said Atieh Abu Zahrah.

Ao lado da esposa Siham Mahmud Abdallah e da filha Sabrin, Ibrahim completou dois anos de residência em Venâncio Aires, em setembro último. Não esconde a satisfação com a liberdade e tranquilidade encontradas na cidade. Entretanto, ele reafirma sua preocupação com o destino da família, a exemplo do ano passado. Depois de um ano da reportagem veiculada na Gazeta do Sul, Ibrahim não tem emprego e faz apenas alguns bicos como trabalhador. A esposa é doente e, segundo a família, não pode trabalhar.

A filha, Sabrin, frequenta a escola desde que chegou na Capital do Chimarrão. No meio do ano, no entanto, a jovem de 19 anos teve o auxílio-estudo e as aulas de reforço suspensas pelo Acnur. Graças ao poder público municipal, que garante o transporte da estudante até Santa Cruz do Sul, ela dá continuidade às aulas na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Com exceção de Siham, a família de Ibrahim entende e fala o português. Eles moram no térreo de um edifício residencial, no Centro da cidade.

O primogênito de Ibrahim, Muhand, está reassentado com a esposa e os filhos nos Estados Unidos. Até o ano passado, as súplicas do pai eram para transportar Muhand até o Brasil, resgatando-o na fronteira do Iraque com a Síria. Sem permissão, o rapaz foi levado com a família para solo norte-americano. Agora, Ibrahim torce por uma outra causa: para que o Acnur não retire as bolsas-auxílio aos refugiados. “Como vamos viver?”, indaga ele, que garante não poder trabalhar por causa de queimaduras nos pés. Segundo Ibrahim, as famílias aguardam uma reunião com representantes do Acnur, para que seja definido o futuro de cada grupo, há três meses.

Benefícios
Por dois anos, a contar do dia da chegada no Brasil, as famílias de refugiados palestinos são sustentadas pela Acnur e monitoradas pela Associação Antônio Vieira (Asav), de Porto Alegre. Em Venâncio Aires os grupos recebem a ajuda de um agente de integração, que agenda consultas médicas, por exemplo. Desde então, conforme a assistente de Informação Pública do Acnur, Carolina Montenegro da Costa, eles têm moradia alugada, mobiliada e com eletrodomésticos, auxílio-subsistência, curso de língua portuguesa e outros, assistência social e acompanhamento médico, além de oportunidades para colocação no mercado de trabalho.

Carolina comenta que os benefícios diretos e indiretos aos refugiados deveriam ter sido encerrados entre setembro e outubro deste ano, mas foram ampliados até o final do ano. Os recursos da comunidade internacional, representada pelo ACNUR, vêm de um fundo comum que conta com doações voluntárias de países, do setor privado e de doadores individuais. Apenas 2% do orçamento do órgão tem como origem a Organização das Nações Unidas.

Pacote de assistência
•• Pagamento de aluguel em habitações mobiliadas e com eletrodomésticos;
•• Auxílio-subsistência, de acordo com a composição familiar, com repasse de recursos financeiros;
•• Curso do idioma português, com professores bilíngues (Português/Árabe) e especializados em ensino do idioma para estrangeiros. Neste caso, foi pago um incentivo financeiro mensal para todos com pelo menos 75% de frequência nas aulas;
•• Assistência social e acompanhamento médico, incluindo marcação de consultas e serviço de tradução;
•• Oferta de medicamentos não disponíveis na rede pública de saúde. Para casos de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e doenças respiratórias, foram fornecidos aparelhos específicos como medidores de pressão e inaladores, por exemplo;
•• Serviço de tradução juramentada para documentos escolares e universitários, carteira de motorista, entre outros;
•• Emissão de documentos de identidade, Carteira de Trabalho e CPF;
•• Encaminhamento de crianças, jovens e adultos para instituições de ensino;
•• Vale-transporte depositado mensalmente em conta bancária de cada refugiado;
•• Para as famílias com filhos recém-nascidos, o programa ofereceu – até a idade de um ano – recursos para compra de leite em pó e fraldas descartáveis;
•• O programa também trabalha em parceria com agências de microcrédito, para facilitar o acesso a recursos que possam financiar a implantação de pequenos empreendimentos.
Fonte: Setor de Informação Pública do Acnur

Fonte: Gazeta do Sul

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Judiciário não pode capturar prerrogativas do Executivo” - Entrevista com Tarso Genro

“Judiciário não pode capturar prerrogativas do Executivo”

Em entrevista à Carta Maior, o ministro da Justiça, Tarso Genro, fala sobre o caso Battisti e suas repercussões políticas. Para ele, esse debate vai além de questões técnicas sobre a extradição, envolvendo visões diferentes sobre a democracia, o Estado de Direito e a Soberania. Tarso Genro critica a tentativa de alguns juízes do STF de avançar sobre prerrogativas do Executivo e estranha o silêncio na mídia sobre os precedentes existentes no Supremo, que apóiam a decisão contrária à extradição, e também sobre outras concessões de refúgio feitas pelo Ministério da Justiça, como as dadas a dezenas de bolivianos, ligados à oposição de direita, que realizaram ações armadas contra o governo Evo Morales.

Maro Aurélio Weissheimer

O debate envolvendo a situação do italiano Cesare Battisti vai além de questões técnicas envolvendo o instrumento de extradição. Na polêmica gerada pelo caso, os argumentos tratam de questões relacionadas ao atual estágio da democracia brasileira e ao Estado de Direito. Na avaliação do ministro da Justiça, Tarso Genro, esse debate é marcado por duas visões diferentes a respeito da democracia, do Estado de Direito, da Soberania e da própria crise pela qual os atuais modelos democráticos estão passando.

Em entrevista à Carta Maior, Tarso Genro fala sobre o caso e critica a tentativa de alguns juízes do Supremo Tribunal Federal de capturar a função política e a legitimidade do Poder Executivo para exercer suas prerrogativas. Além disso, analisa a qualidade do debate público sobre o tema. O ministro estranha o silêncio da maioria da mídia brasileira sobre os precedentes existentes no Supremo, que apóiam a decisão contrária à extradição, e também sobre outras concessões de refúgio feitas pelo Ministério da Justiça. E exemplifica:

“Concedemos, pelo CONARE, refúgio a dezenas de bolivianos, ligados à oposição de direita na região de Pando e de Santa Cruz, que realizaram ações armadas ilegítimas e ilegais contra o governo de Evo Morales. Após essas ações, eles ingressaram no território brasileiro. Teoricamente, eram guerrilheiros de direita. Receberam refúgio do governo brasileiro. Ninguém, mas absolutamente ninguém, da grande imprensa fez qualquer comentário sobre isso, pois este fato demonstra não só a nossa postura acolhedora em relação a pessoas que cometem delitos políticos dentro da democracia – como ocorreu na Bolívia -, como também a isenção com que o Ministério da Justiça trata esses assuntos”.

Carta Maior: Qual sua avaliação sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal no caso Battisti?

Tarso Genro: Dentro da tradição específica do Supremo Tribunal Federal sobre a matéria houve duas mudanças fundamentais. A primeira delas foi a avocação, pelo Supremo, sob o pretexto de examinar um ato administrativo do Poder Executivo, de um juízo político que, em se tratando de questões de refúgio, é prerrogativa do Executivo, no caso, através do CONARE, com recurso ao Ministro da Justiça. Ao avocar esse juízo político, por uma maioria de 5 a 4, o Supremo Tribunal Federal produziu uma violação clara e frontal de um dispositivo legal. Esse dispositivo é aquele que afirma que, uma vez deferido o refúgio, interrompe-se o processo de extradição. Para dar continuidade e lógica a essa primeira decisão, teria que decidir que o presidente da República perderia os poderes contidos na Constituição de representar e decidir os destinos do país no que se refere à política externa, capturando assim, definitivamente, aquilo que é um juízo político do Executivo.

Neste momento, é que o ministro Ayres Brito, com seu voto, fez o Supremo retornar ao leito da Constituição. Trata-se, na verdade, de um episódio marcante na história do direito e da democracia no país e o Ministro Ayres Brito, mais aqueles que já tinham votado com a sua posição passarão à história como exemplo de sensatez e respeitabilidade cívica. O que o STF faria com a decisão defendida dignamente pelos demais seria exercer, a partir dela, uma tutela jurídico-burocrática sobre a política do Executivo. Isso transferiria para o Poder Judiciário a legitimidade originária das urnas, que é outorgada ao presidente, para o Poder Judiciário. Isso seria muito grave, uma espécie de subsunção, por meios “suaves”, que capturaria a legitimação dada pelas urnas ao chefe de Estado, que é o presidente da República, para definir inclusive a nossa política externa.

Carta Maior: Um dos grandes debates que vem sendo travado neste caso gira em torno da caracterização dos crimes imputados a Battisti – se seriam de natureza política ou comum. Todo o debate travado na e pela mídia já tem, desde o início, uma conotação fortemente política. Essa politização do caso, expressa em notícias, artigos, declarações e editoriais, não reforça a caracterização do mesmo como um problema político e não uma questão envolvendo um crime comum? Uma segunda pergunta, derivada desta primeira, é sobre o comportamento da mídia brasileira no episódio. Qual sua opinião sobre essa atuação?

Tarso Genro: A posição majoritária da mídia teve três momentos. O primeiro foi marcado por um esforço gigantesco para descaracterizar a qualidade jurídica do meu despacho, dizendo que se tratava de uma pessoa que não era um jurista e que, portanto, não poderia ter interpretado corretamente a situação criada com o pedido de refúgio do sr. Battisti. Trata-se de uma posição bastante conhecida nos meios acadêmicos do país: juristas são aqueles que relativizam a Constituição para atender os interesses do “mercado” e não aqueles que defendem a Constituição a partir da predominância dos direitos fundamentais.

O segundo movimento foi tentar criar aquilo que se chama, do ponto de vista da filosofia heidegeriana, uma pré-compreensão. Uma pré-compreensão na sociedade para influir sobre o Supremo Tribunal Federal, dizendo, em primeiro lugar, que estava provado que Battisti matou; em segundo, que sempre foi e é um assassino e, em terceiro lugar, é um assassino terrorista e, conseqüentemente, não participou de uma ação política e sim de um ou dois assassinatos comuns. Eu sempre digo para as pessoas que me cercam que se eu fosse uma pessoa que não conhecesse o processo e considerasse apenas as informações veiculadas por setores da grande imprensa, também votaria pela extradição do sr. Battisti, pois elas estão orientadas apenas por um juízo sobre o tema.

O terceiro grande movimento foi tentar incidir diretamente sobre a posição do STF, estimulando a retirada do juízo político da esfera da presidência, e capturando, pelo Supremo, inclusive decisões sobre a política externa do país. Uma decisão como esta abriria um precedente que extinguiria todos os limites para essa captura de juízos políticos próprios do Executivo pelo Supremo.

Esta seqüência de posições tem um caráter nitidamente ideológico e acabou desmascarada, na minha opinião, por dois fatos fundamentais. Primeiro, porque pelo menos uma parte da cidadania ficou sabendo que havia dezenas de precedentes que confortavam a minha decisão e não a posição que alguns juízes do Supremo estavam tentando tomar. O segundo fato ficou expresso no próprio voto do ministro Gilmar Mendes. Ele teve a honestidade intelectual suficiente para dizer que os objetivos que a organização de Battisti perseguia eram objetivos políticos, mas que o delito cometido na busca desses objetivos era um delito comum. Portanto, ele faz uma cisão, não somente do processo histórico em que a Itália estava imersa naquele momento, mas também uma cisão impossível de ser feita racionalmente, do fato que estava sendo julgado naquele momento. Se era verdade que Battisti teria cometido um homicídio, também era verdade que se tratava de um delito cometido no interior de um processo político, o que caracterizaria, de maneira suficiente, o delito político e não o comum. Aliás, como havia sido reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal em outras ocasiões. Lembrem-se que estas mesmas posições sobre o direito e a Constituição são defendidas por aqueles que afirmam que, quem matou na tortura, aqui no Brasil, está anistiado.

Não bastassem todas essas questões também circulou pela mídia uma informação solerte e mentirosa do ponto de vista histórico e em relação ao próprio fato. Isso foi trabalhado em vários editoriais e em várias informações paralelas. Consiste em dizer que não existe crime político dentro da democracia. Esse conceito remete a um outro, a saber, que só pode existir crime político dentro de um regime ditatorial. A visão correta, humanista, moderna e democrática é exatamente a contrária. O que ocorre em atos de resistência contra uma ditadura não é um crime, mas sim o direito universal de resistência contra o arbítrio e contra o poder ditatorial. Portanto, isso não é um ato que possa ser tipificado. O crime político dá-se ou em regimes de transição para uma democracia, ou na democracia. Aí é que o tipo pode ser qualificado como criminoso, de natureza política ou não, dependendo do caso. Neste sentido, acho que esse debate que está sendo travado em torno do caso Battisti é exemplar. Na minha opinião, não há certamente nenhum tipo de conspiração. O que há são duas visões a respeito da democracia, do Estado de Direito, da Soberania e da própria crise pela qual os atuais modelos democráticos estão passando, impotentes para realizar uma coesão social mínima de novo tipo, que ocorreu historicamente num pequeno período da social-democracia.

Carta Maior: O sr. falou em precedentes no Supremo relacionados ao caso. Poderia citar alguns?

Tarso Genro: O caso do colombiano Oliveira Medina é um exemplo. O do italiano que hoje é dono de um restaurante no Rio de Janeiro é outro. Há casos, inclusive, de pessoas que estiveram envolvidas em ações armadas de rua, que resultaram em várias mortes. Na minha gestão, por exemplo, foi dado refúgio a dezenas de bolivianos liderados pela oposição de direita na região de Pando e de Santa Cruz, que realizaram ações armadas ilegítimas e ilegais contra o governo de Evo Morales. Após essas ações, eles ingressaram no território brasileiro. Teoricamente, eram guerrilheiros de direita. Receberam refúgio do governo brasileiro. Ninguém, mas absolutamente ninguém, da grande imprensa fez qualquer comentário sobre isso, porque isso demonstraria não só a nossa postura acolhedora em relação a pessoas que cometem delitos políticos dentro da democracia – como ocorreu na Bolívia -, como também a isenção com que o Ministério da Justiça trata esses assuntos. Mas isso não aparece na imprensa, talvez porque acarrete a demolição da tese de que eu sou apenas um quadro de esquerda que está protegendo um presumido outro militante de esquerda.

Carta Maior: O editorial da revista Carta Capital desta semana afirma que uma possível saída jurídica para o presidente da República seria conceder asilo a Battisti. Existe essa possibilidade?

Tarso Genro: Pode ser uma saída. Eu não sei qual vai ser a decisão do presidente sobre o assunto. O presidente, quando decide sobre isso, decide não apenas sobre uma questão concreta, mas também sobre uma relação entre dois Estados. O refúgio é um ato administrativo do Ministro da Justiça, depois de passar pelo Comitê Nacional de Refugiados, que é deferido quando existe um certo temor de perseguição. Já o asilo político é uma decisão complexa, que passa pela Polícia Federal, pelo Ministro de Relações Exteriores, mas sempre deve refletir a determinação política do Presidente, que é o “chefe” direto da Política Externa, função diretamente vinculada à Constituição. Há uma legislação relacionada a essa decisão, mas o fundamento do asilo político está inscrito diretamente na Constituição e vem de um comando supremo de decisão política do presidente.

Carta Maior: Outro tema relacionado ao caso, mencionado pelos defensores da extradição, fala da possibilidade de uma grave crise diplomática entre o Brasil e a Itália, caso Battisti não for extraditado. Qual sua opinião sobre isso? Existe tal ameaça?

Tarso Genro: Isso é uma chantagem primária que já foi feita quando eu proferi meu despacho. São posições divulgadas para pressionar o presidente a ter medo de um conflito diplomático com a Itália e que prestigiam a grosseria de alguns ministros italianos quando se reportaram a juristas brasileiros e ao despacho do ministro da Justiça. É uma tentativa de intimidação dizer que haveria uma crise política. É como dizer ao presidente da República: não exerça a soberania, isso pode desgostar os outros. Esse tipo de argumento não ecoa na cabeça do presidente, que já deu demonstrações suficientes de que dirige o país exercitando a soberania nacional. O deferimento ou indeferimento da permanência de Battisti no país não será balizado por uma visão primária como essa.

Carta Maior: Na sua opinião, para além do debate jurídico em torno desse tema, o que esse caso mostra sobre o atual estágio da democracia brasileira e da qualidade do debate público sobre a democracia?

Tarso Genro: Posso dar um exemplo concreto. Na semana passada, foram divulgadas na imprensa – de uma maneira muito asséptica e cuidadosa, aliás – declarações de uma pessoa que teria conhecimento e participação direta ou indireta no esquartejamento do ex-deputado Rubens Paiva, que foi seqüestrado e assassinado na época do regime militar. Ele não teria sido assassinado por militares, mas sim por civis vinculados aos aparatos de repressão paralelos e ilegais que funcionavam naquela época e que eram tolerados e até estimulados pelos governantes de então. Não li nenhuma palavra sobre esse tema dos articulistas que defendem a extradição de Battisti. Nenhum juízo de valor, nenhum pedido para que a Justiça brasileira se mova para investigar esse fato, eventualmente punir os envolvidos, mesmo que seja para depois anistiar os cidadãos brasileiros que participaram desses órgãos repressivos e que, até hoje, não sofreram sequer uma advertência do Estado após a Lei da Anistia.

A anistia foi um momento importante na redemocratização do país, mas foi produto de um compromisso entre as elites políticas democráticas da época e as elites do regime militar. Esse compromisso vem sendo observado pelas sucessivas manifestações do Estado brasileiro até agora. O governo do presidente Lula está fazendo um esforço, através da Secretaria de Direitos Humanos, dirigida pelo ministro Paulo Vanuchi, e da Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça, para resgatarmos a memória daquele período e fazermos um pouco de Justiça.

O caso Battisti é emblemático, envolvendo uma tentativa de luta armada dentro de um regime democrático que, naquele momento, atravessava uma crise profunda. Ninguém discute, na Europa, se esses guerrilheiros, naquela época, eram guerrilheiros políticos ou não. A nossa legislação não exige que as pessoas não tenham participado de luta armada ou não tenham participado de atos violentos para conseguir refúgio. Ela exige que haja um certo temor de perseguição, de uma parte, e que o “crime” tenha sido de natureza política. Na verdade, o que está se discutindo nesta questão do sr. Battisti é muito mais do que sua extradição. Está se discutindo uma memória sobre os anos de chumbo na Itália e aqui no Brasil. Se observamos a posição da maioria dos cronistas que escrevem sobre o assunto, a maioria dos editoriais, veremos que são praticamente os mesmos textos e editoriais que são furibundos contra a política de cotas, que são contra que se processe os torturadores, que chamam as indenizações a prisioneiros, torturados e perseguidos políticos de gastos públicos inúteis. São os mesmos, aliás, que, em última análise, proferem as maiores ofensas contra quem defende uma posição diferente.

Durante todo esse debate, quando nomes como Celso Bandeira de Mello, Fábio Comparatto, José Afonso Silva e Dalmo Dallari falaram sobre o caso e quando eu falei por obrigação como ministro da Justiça e não como jurista do porte deles, nunca ofendemos ninguém, nunca atacamos ninguém, nunca desconstituímos pessoalmente ninguém. O que os defensores da extradição fazem contra quem tem uma posição contrária a essa é partir sempre para desqualificações e ofensas pessoais. Isso é um método para transformar um debate de opiniões e princípios em um debate burocrático sobre quem têm mais poder de violentar a opinião do outro. Trata-se, então, na verdade, de um debate entre o autoritarismo e a democracia, um debate entre concepções de Estado de Direito. Até hoje, também não se viu destas pessoas nenhum comentário sobre todas as decisões tomadas no Supremo que vão na mesma direção que defendemos. Não é feito, por exemplo, nenhum vínculo entre esse caso e o da Olga Benário, com exceção daquela carta da Anita. Eu não disse e não sustento que são casos iguais. Mas são casos análogos. Olga Benário também foi acusada de ter cometido ações militares e de ter baleado policiais. A extradição dela deu no que deu, em função de um exame burocrático, tecnicista e desumano da norma. Ou seja, em função de uma pré-compreensão de que era preciso aniquilar um determinado inimigo que estava ali presente naquela época; no caso, os comunistas.

Carta Maior: Um dos argumentos utilizados pelos defensores da extradição consiste em dizer que há uma grande unanimidade na Itália em torno dessa posição, incluindo aí a própria esquerda italiana. Qual sua posição sobre esse argumento?

Tarso Genro: A informação que tenho é que existe, sim, um sentimento majoritário na Itália a favor da extradição de Battisti. Isso está relacionado, ao meu ver, entre outras coisas, à cultura política italiana atual. É uma cultura política que tem origens profundamente democráticas que vem do Renascimento, do período da unificação nacional do país e das guerras de resistência ao fascismo. Mas que também está limitada por profundas derrotas políticas da esquerda italiana nos últimos tempos, que não lhe permitiu avançar com coerência dentro da democracia, conseguindo apresentar uma alternativa democrática, que ganhe politicamente e respeite o centro, como fizeram Lula e o PT aqui no país. Uma situação que levou a esquerda italiana a uma situação de total defensiva em relação aos valores tradicionais da esquerda democrática. Eu não acredito que a esquerda italiana ou a maioria do povo italiano tenha qualquer tipo de má fé neste caso, ou que estejam construindo uma posição para fazer uma vendetta. Acho que é um caldo sócio-cultural que explica essa posição majoritária. É certo, porém, que não há unanimidade.

Quando falei, recentemente, que havia algumas manifestações que expressavam posições de cunho fascista no espectro político italiano, aqui no Brasil houve uma insurreição e uma indignação expressas na maioria da mídia. A mesma indignação que faltou quando ministros italianos, que compõem o espectro da extrema direita, ofenderam gravemente juristas brasileiros e o próprio Estado brasileiro. Essas manifestações de virulência compõem um espectro político-ideológico que defende certos interesses. Um destes interesses é, efetivamente, que a grande mídia possa tutelar a democracia no Brasil a partir de seus valores que tem se chocado com os valores expressos pelo povo através das eleições democráticas. Isso, de um lado, faz parte do processo democrático, do exercício da liberdade de imprensa, que deve ser preservado, mas de outro, deve ser respeitado também nosso direito de responder a essa posição e fazer circular as nossas idéias de esquerda de maneira equânime.

O que está acontecendo é que esse setor da mídia não está aceitando que se conteste as suas posições. Ordinariamente, não publicam nossas respostas e, quando publicam, o fazem de uma maneira escondida, exercendo um autoritarismo burocrático sobre a formação da opinião. Isso não é nenhuma novidade. Há, hoje, um grande controle da mídia sobre a vida pública brasileira. É ela que faz a pauta dos partidos, é ela que faz a pauta dos parlamentos, é ela que interfere na pauta do Supremo, invadindo, inclusive, correspondência privada dos ministros. Mas creio que isso faz parte de um grande processo de reorganização democrática do país, e (a mídia) sequer deve ser demonizada em virtude dessas deformações, pois a liberdade de informar, mesmo deformadamente, é um bem maior que deve ser preservado, sob o risco da democracia sucumbir.

Carta Maior: Como fica a situação de Battisti agora? Segue preso aguardando a decisão presidencial?

Tarso Genro: Tecnicamente, sim. Pela informação que tenho, ele permanece em greve de fome que, na minha opinião, deveria suspender. Já manifestei essa posição publicamente. O presidente Lula também. A greve de fome é uma arma de um preso político. Battisti é um preso político no Brasil. E, na minha opinião, ele está preso ilegalmente, inclusive. Está sendo considerado como paciente de uma extradição comum, como um criminoso comum, não se dando a ele o direito de ser acolhido como refugiado, violando-se expressamente o texto legal que afirma que, quando é concedido o refúgio, interrompe-se o processo de extradição.

Entendo que essa posição do Supremo de não interromper o processo de extradição é ilegal. Mas quem, em última análise, deve dizer se é ilegal ou não é o próprio Supremo Tribunal Federal. Do ponto de vista formal, temos que respeitar e prestigiar a decisão do Supremo, pois é ele que dita a interpretação da lei em última instância. Isso não quer dizer que não possamos debater essa posição e, inclusive, criticá-la, pois ela vai mais além da situação do sr. Battisti, dizendo respeito à questão democrática no Brasil. O advogado de Battisti é que deve definir se vai pedir relaxamento de prisão, prisão domiciliar ou vai entrar com um habeas corpus tentando sua libertação. Não cabe ao Ministério da Justiça ter nenhuma intervenção sobre essa questão.

Carta Maior: Do ponto de vista jurídico a questão deveria obrigatoriamente chegar ao Presidente?

Tarso Genro: O único despacho que, se fosse respeitado pelo Supremo, não levaria o tema ao presidente da República, é o que dei concedendo o refúgio. Isso deixaria a questão de Battisti no âmbito do Ministério da Justiça, exclusivamente, sob minha responsabilidade e com o desgaste eventual que eu poderia ter, tomando essa decisão. Se eu tivesse indeferido a extradição, o advogado de Battisti poderia fazer um recurso hierárquico ao presidente da República. Com a decisão do Supremo, deu-se, na verdade, uma triangulação. O ministro da Justiça deu o despacho concedendo o refúgio. O Supremo disse que esse despacho era ilegal, anulou-o e concedeu a extradição. Mas, ao mesmo tempo, disse, corretamente, que o juízo final a respeito do assunto é do presidente da República. Tenho a impressão de alguém andou vendendo para os “formadores de opinião” a idéia de que o Supremo poderia “livrar” o Presidente de decidir sobre o assunto, como se o presidente fosse uma pessoa omissa, infensa a assumir responsabilidades inerentes ao seu cargo, o que seus sete anos de governo demonstram ser uma opinião equivocada e preconceituosa. Por convicção jurídica e postura política procurei uma solução definitiva com o meu despacho. A responsabilidade do assunto ter chegado ao primeiro magistrado da nação é de quem quis convencer o Supremo e a sociedade de que o STF poderia avançar sobre as prerrogativas do Presidente, violando a Constituição.

Fonte: Agência Carta Maior

sábado, 21 de novembro de 2009

Lula: greve de fome é ignorância e não ajuda Battisti

Fonte: Terra

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta sexta-feira que a greve de fome do ex-ativista Césare Battisti não fará pressão para frear sua extradição à Itália, onde foi condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos. O STF autorizou esta semana a extradição de Battisti à Itália, embora tenha deixado a decisão final nas mãos de Lula.

Battisti, ex-ativista do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), foi condenado à prisão perpétua na Itália em 1983 por supostamente ter coordenado o assassinato de quatro pessoas entre 1977 e 1979. Ele foi preso em março de 2007 no Rio de Janeiro e o governo italiano pediu sua extradição em maio do mesmo ano. Sob o argumento de "fundado temor de perseguição", o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu status de refugiado político ao italiano em janeiro. O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) havia dado parecer contrário ao refúgio. A maioria dos ministros do STF votou a favor da extradição.

"Fazer greve de fome não o ajuda. A greve de fome ou é um ato de desespero ou de ignorância", afirmou Lula em entrevista a duas rádios do nordeste do país. O presidente assegurou que vai levar em conta todos os fatores, incluindo o fato de Battisti ser acusado no Brasil de falsificar seu passaporte, antes de tomar uma decisão.

Posteriormente, em coletiva de imprensa em Salvador com o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, Lula assegurou que a decisão da extradição ainda não foi tomada, já que ainda não recebeu a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).

O presidente disse que uma vez que receba a carta do STF, analisará a situação com os analistas políticos e tomará a decisão.

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OBS.: Lula adiantou que só irá se pronunciar depois de receber o acórdão (parecer formal) do STF, o que deve adiar a solução para o ano que vem.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Battisti mantém greve de fome e tem esperança, diz Suplicy

Fonte: Terra
Fernando Diniz
Marina Mello

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) afirmou nesta quinta-feira que o ex-ativista italiano Cesare Battisti espera que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o deixe permanecer no Brasil, mas mantém a greve de fome que dura quase uma semana. Ontem, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a extradição de Battisti, mas deixou com o presidente a palavra final sobre o caso.

Battisti, ex-ativista do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), foi condenado à prisão perpétua na Itália em 1983 por supostamente ter coordenado o assassinato de quatro pessoas entre 1977 e 1979. Ele foi preso em março de 2007 no Rio de Janeiro e o governo italiano pediu sua extradição em maio do mesmo ano. Sob o argumento de "fundado temor de perseguição", o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu status de refugiado político ao italiano em janeiro. O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) havia dado parecer contrário ao refúgio. A maioria dos ministros do STF votou a favor da extradição.

Suplicy visitou Battisti junto do advogado de defesa do italiano, Luís Roberto Barroso. O ex-ativista aguarda a definição sobre sua extradição no presídio da Papuda, em Brasília.

"Recomendamos a ele para suspender a greve de fome, mas ele disse que vai manter. Já está com uns 9 kg a menos. Está um pouco mais abatido, mas ainda forte", disse o senador. O parlamentar disse que vai procurar a se colocar a disposição do presidente Lula para discutir sobre a extradição.

O advogado Luís Roberto Barroso afirmou que Battisti se sentiu "aliviado" com o fato da decisão ter sido encaminhada para o presidente Lula. Sobre a greve de fome, o italiano acredita ser a única forma de protestar contra a "perseguição da Itália", afirmou Barroso.

Questionado se Lula poderia não ratificar o despacho de Tarso com receio de alguma ruptura nas relações internacionais com a Itália, o advogado avaliou que o desgaste já ocorreu e foi causado única e exclusivamente pela tentativa italiana de intervir em assuntos nacionais, colocando em risco a soberania brasileira.

"O desgaste com a Itália já ocorreu e foi motivado pela reação de pouca diplomacia da Itália, que se referiu depreciativamente à Justiça e às autoridades brasileiras. O presidente Lula, em todo o período que durou este embate, conservou postura serena e diplomática", disse.

O advogado, no entanto, disse não esperar que esta decisão do presidente saia nos próximos dias. "Não se deve esperar açodamento. Acho que o presidente vai dar tempo ao tempo", afirmou.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Palestinos vão pedir que ONU reconheça seu Estado independente

fonte: BBC

O negociador-chefe palestino afirmou neste domingo que seu governo pedirá ao Conselho de Segurança da ONU que reconheça um Estado palestino independente.
Saeb Erekat afirmou à BBC que o pedido deve ser feito por causa da falta de progressos na retomada das negociações de paz com o governo israelense.

"Agora é nosso momento decisivo. Entramos nesse processo de paz para atingir uma solução de dois Estados", disse ele.

"O fim do jogo é dizer aos israelenses que agora a comunidade internacional reconhece uma solução de dois Estados com as fronteiras de 67", completou.

Apoio internacional

Erekat afirmou que esta não seria uma declaração unilateral mas sim "uma decisão palestina apoiada agora pelo encontro dos ministros das Relações Exteriores árabes da semana passada".

"Nos consultaremos com a União Europeia, os russos, a ONU, as nações africanas, latinas e depois disso, diremos aos americanos 'vocês não conseguiram fazer com que os israelenses parassem as atividades nos assentamentos, por que usariam então seu poder de veto?'"

A imprensa israelense especula que os EUA, país com direito a veto e tradicional aliado israelense, impediria a aprovação de uma eventual declaração do Conselho de Segurança ratificando a independencia palestina

Mas o ministro da Defesa israelense, Ehudbarak, disse que Israel corre o risco de ver a comunidade internacional se voltar para o lado palestino se as negociações de paz não forem retomadas.

Independência em 88

Neste domingo, o vice-premiê israelense, Silvan Shalon, afirmou que "nenhuma declaração unilateral feita pelos palestinos moverá Israel em direção à paz".
O Conselho de Segurança da ONU ainda não se pronunciou mas Erekat disse que a Rússia, um dos países com direito de veto, além de países europeus, apoiariam a ideia.

Erekat disse que os palestinos sentem que lhes sobraram poucas opções já que Israel continua construindo assentamentos judaicos em áreas ocupadas desde a guerra de 1967.

O congelamento das ampliações dos assentamentos nas terras onde os palestinos pretendem construir seu futuro Estado é considerado por eles um pré-requisito para a retomada das negociações, exigência negada pelo governo do premiê Netanyahu.

Cerca de meio milhão de israelenses vivem neste assentamentos, além dos milhares de militares deslocados para protege-los.

Os palestinos pretendem construir seu futuro Estado na Cisjordânia, Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza. As negociações de paz entre israelenses e palestinos vem ocorrendo intermitentemente pelos últimos 18 anos.

Os palestinos já haviam declarado independencia unilateralmente há exatos 21 anos, em 15 de novembro de 1988. A declaração foi reconhecida por dezenas de países, o Brasil não incluido, mas nunca implementada de fato.

Lula diz que cumprirá decisão do STF sobre caso Battisti

Fonte: Terra


Leandro Demori
Direto de Roma
O presidente Luis Inácio Lula da Silva afirmou, na tarde desta segunda-feira, em Roma, que seguirá a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o caso Cesare Battisti caso ela seja "determinativa". "Não existe a possibilidade de seguir ou ser contra, se a decisão da corte for determinativa não se discute, se cumpre", disse Lula a um grupo de jornalistas brasileiros no palazzo Chigi, sede governativa do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Lula e Berlusconi almoçaram juntos depois do evento da FAO realizado na manhã desta segunda-feira.

O presidente também afirmou que não poderia ir à Itália sem discutir a questão de Battisti. Lula ratificou sua posição, de esperar a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), órgão responsável pela análise do caso.

Ex-militante do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), Battisti foi condenado na Itália à prisão perpétua por quatro homicídios cometidos no fim da década de 1970. Em janeiro passado, ele obteve o status de refugiado político do governo brasileiro. O Estado italiano pede a sua extradição.

O caso agora é julgado pelo STF, que deve apoiar ou não a deportação. Após duas sessões, a votação está empatada, e ainda não se pronunciou ministro Gilmar Mendes, presidente da Casa.

O Supremo deve voltar a julgar o caso nesta quarta-feira, e a decisão poderá ainda ser submetida ao presidente, que poderá ratificar ou não a sentença do STF.

Com informações da Agência Ansa.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Decisão sobre Battisti fica com Gilmar Mendes

Fonte: Estadão
Felipe Recondo e Mariângela Gallucci, BRASÍLIA
Julgamento foi interrompido pela terceira vez, mas presidente da corte já indicou ser favorável à extradição


Pela terceira vez o Supremo Tribunal Federal (STF) adiou decisão sobre a extradição do ativista Cesare Battisti. Ontem, o ministro Marco Aurélio Mello votou pela permanência do italiano no Brasil, empatando o placar em 4 a 4. Mas o presidente da corte, Gilmar Mendes, já indicou ser favorável à extradição.

Com o destino de Battisti praticamente selado no STF, Mendes mandou recado para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Setores do governo e do Judiciário entendem que Lula, mesmo com a extradição ordenada, não seria obrigado a cumpri-la.

Para Mendes, o resultado do julgamento deverá ser cumprido por respeito à Constituição e não pelo receio de sofrer um processo de impeachment, que caberia no caso de descumprimento de uma decisão judicial. "Por que o presidente da República cumpre uma decisão? Não é porque será eventualmente afastado do cargo se não vier a cumpri-la. Porque respeita a Constituição. Sabemos que as condições políticas para seu afastamento são extremamente difíceis. Precisaria haver um processo instalado pelo procurador-geral da República e uma aprovação por dois terços da Câmara dos Deputados", disse.

JURISPRUDÊNCIA

A jurisprudência do Supremo confirma que o presidente pode negar-se a entregar Battisti. O advogado Nabor Bulhões, que representa a Itália, e o ministro Cezar Peluso, relator do pedido de extradição, afirmam que Lula deve seguir orientação do tribunal. Esse assunto será discutido na retomada do julgamento, marcada para quarta-feira.

Ontem, Mendes decidiu suspender a sessão após constatar que havia apenas cinco ministros em plenário, e anunciou que dará seu voto "oportunamente". Sem as presenças dos ministros Joaquim Barbosa e Ellen Gracie, que já votaram, mas estão viajando, e dos ministros Celso de Mello e José Antonio Dias Toffoli, que se declararam suspeitos, apenas Marco Aurélio leu seu voto.

Ele afirmou não ser da competência do tribunal avaliar a legalidade do ato que concedeu refúgio a Battisti, disse ser contra a extradição, porque os crimes cometidos seriam políticos, e declarou que a corte não deveria se pronunciar sobre necessidade de o presidente seguir o entendimento do STF.

"A configuração do crime político, para mim escancarada, é mais uma matéria prejudicial à sequência do exame dos temas envolvidos na espécie", afirmou. Marco Aurélio lembrou que várias autoridades italianas se mobilizaram para criticar a decisão do governo brasileiro de dar refúgio a Battisti.

Para ele, se Battisti fosse um criminoso comum, o governo italiano não faria essa pressão. "Assim procederiam se na espécie não se tratasse de questão política? Seria ingenuidade acreditar no inverso do que surge repleto de obviedade maior!"

Marco Aurélio disse que com certeza o presidente Lula concordou com a decisão do ministro da Justiça de dar refúgio a Battisti. "Façam ao menos justiça a sua excelência o ministro Tarso Genro, cujo domínio do direito todos reconhecem."

PRINCÍPIOS

O ministro defendeu a até então vigente jurisprudência do STF de que concedido o refúgio o processo de extradição deve ser arquivado. Para Marco Aurélio, o STF não pode assumir um papel que é do governo.

"O Supremo não há de substituir-se ao Executivo, adentrando seara que não lhe está reservada constitucionalmente e, repito, simplesmente menosprezando a quadra vivenciada à época na Itália e retratada com todas as letras na decisão proferida", argumentou.

Marco Aurélio criticou o que chamou de julgamento desordenado. "Há necessidade de preservarem-se princípios, parâmetros e valores. Única forma de avançar-se culturalmente e aprimorar-se o Estado Democrático de Direito. O julgamento desordenado, embaralhando-se temas, não se coaduna com a organicidade do direito, com a segurança jurídica garantida constitucionalmente", disse.

Tarso teme efeito contra refugiados

Quase 40 minutos antes do início do julgamento no STF, o Ministério da Justiça divulgou uma nota em seu site oficial para alertar que, se a corte autorizasse a extradição de Cesare Battisti, seria aberto um precedente para que outros países peçam a entrega de refugiados. Ou seja, poderia ocorrer um efeito cascata.

"Caso o Supremo Tribunal Federal decida pela extradição do italiano Cesare Battisti a seu país de origem, o Brasil deverá receber mais pedidos de extradição de outros refugiados", sustentou a nota. Citando informações do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), o Ministério revelou que representantes de diversos países já sinalizaram o interesse em cassar o refúgio de seus nacionais.

Conforme a nota, o presidente do Conare, Luiz Paulo Barreto, afirmou que todo o sistema internacional que estrutura o refúgio baseia-se na estabilidade jurídica e na proteção aos refugiados. "É por isso que a convenção da ONU e a lei brasileira não permitem a extradição de um refugiado. Não sendo assim, ficarão sempre sujeitos a persecução ou perseguição do país de origem pelas mesmas razões que levaram o país de acolhida a protegê-lo. Seria o fim da estabilidade jurídica e social que caracterizam e sustentam o refúgio", disse Barreto.

Integrantes do governo dizem que já receberam informação de que o País será chamado a se explicar em organismos internacionais, como a corte Interamericana de Direitos Humanos e Corte de Haia, caso entregue Battisti ao governo italiano. Isso porque a extradição do ex-ativista representará o descumprimento de uma regra prevista na convenção da ONU, ratificada pelo Brasil, que impede a entrega de refugiados. Segundo o órgão, hoje vivem no Brasil 4.183 refugiados de 76 países.

Conforme o Ministério, atualmente os países deixam de apelar ao Judiciário porque a legislação internacional impede a entrega de refugiados e estabelece que os processos de extradição são arquivados quando há reconhecimento do refúgio pelo Executivo. A nota lembra ainda que Tarso Genro concedeu a Battisti o status de refugiado devido a "fundado temor de perseguição" do italiano em seu país.

Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091113/not_imp465823,0.php

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cesare Battisti entra em greve de fome contra extradição

05 de novembro de 2009
Renata Camargo - Congreso em Foco
Fonte: Direitos Humanos

O ex-ativista italiano Cesare Battisti, condenado na Itália à prisão perpétua por quatro homicídios, entrou em greve de fome às 18h de ontem (4), segundo informou ao Congresso em Foco o Comitê em Defesa de Cesare Battisti. O ex-ativista está preocupado com a tendência de o Supremo Tribunal Federal (STF) extraditá-lo para seu país de origem, por pressão do governo italiano.

No dia 9 de setembro, o STF interrompeu o julgamento de extradição de Battisti por um pedido de vista do ministro Marco Aurélio Mello. Na ocasião, quatro ministros já haviam decidido pelo envio do ex-ativista à Itália. Os ministros Cezar Peluso, relator do caso, Ricardo Lewandowski, Carlos Ayres Britto e Ellen Gracie querem Battisti extraditado. Outros três magistrados votaram pela permanência do ex-ativista no Brasil: Eros Grau, Joaquim Barbosa e Cármen Lúcia.

Se Marco Aurélio Melo decidir por manter Battisti no Brasil, a causa pode ser desempatada pelo presidente do Supremo, Gilmar Mendes. Há ainda a possibilidade de um novo rumo para esse julgamento. Os pró-Battisti pressionam para que o novo ministro do STF, José Antonio Toffoli, opte por participar do caso e, se decidir julgar, que vote pela permanência de Battisti no país. Toffoli ainda não decidiu se votará nesse processo.

A continuação do julgamento de Battisti está prevista para a próxima quinta-feira (12). Segundo o comitê de defesa, a greve de fome de Battisti reflete uma preocupação do ex-ativista com a mudança de jurisprudência do Supremo. O Brasil tem concedido asilo a diversos condenados políticos. Um caso emblemático foi do ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner, condenado por assassinatos e violações de direitos humanos perpetrados por 40 anos à frente da ditadura na Paraguai.

A defesa de Battisti trabalha com a possibilidade de recorrer mais uma vez ao Conselho Nacional para os Refugiados (Conare) e pode, também, encaminhar a Lula um pedido de clemência. A posição do Supremo ainda é um incógnita e a extradição de Battisti ainda terá que passar por mais um passo antes de ser definida. Quem dará a palavra final sobre o caso é o presidente Lula.

O presidente da República terá uma decisão difícil. De um lado, se Lula negar a extradição, irá se indispor com o governo italiano. De outro, se acatar a extradição, irá contra a decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, que se manifestou a favor de Battisti. Genro concedeu estado de refugiado político a Battisti, em um recurso contra decisão do Conare. Essa decisão foi duramente criticada no plenário do Supremo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Advogados denunciam pressão para não defender imigrantes em Madri

da BBC Brasil

O governo regional de Madri, na Espanha, estaria pressionando advogados espanhóis para que desistam da defesa pública de imigrantes legais ou ilegais, segundo denúncia da Associação de Advogados de Madri apresentada à Justiça nesta semana.

Qualquer imigrante sem recursos, mesmo o que é barrado quando tentar entrar ilegalmente no país, tem direito à defesa pública, de acordo com a lei.

Segundo a denúncia, o governo regional de Madri parece estar disposto a cortar os gastos que tem com esses defensores, que são pagos pelos governos locais. O governo de Madri, por exemplo, diz que gasta 21 milhões de euros por ano nos defensores públicos que atendem estrangeiros.

O advogado que insistir em defender um caso desses tem o seu trabalho dificultado por novos empecilhos legais e é ameaçado de ter que pagar, do próprio bolso, os custos do trâmites nos tribunais - ainda segundo a denúncia.

A queixa foi apresentada pela associação em nome dos 4,5 mil defensores públicos de sua seção de imigração ao Tribunal Superior de Justiça de Madri nesta semana. Esses defensores atenderam a mais de 300 mil estrangeiros sem recursos nos últimos quatro anos.

Entre os empecilhos citados pelos advogados está a introdução de novos requisitos para permitir que um imigrante receba o atendimento gratuito de um defensor público.

A Justiça regional de Madri passou a exigir que a indicação de defensores públicas a imigrantes siga as mesmas regras aplicadas no atendimento a réus espanhóis.

Ou seja, no aeroporto de Barajas, na capital espanhola, cada imigrante que for barrado e quiser um defensor público terá que apresentar certificados (como declaração de renda) que comprovem que não tem recursos para pagar um advogado do próprio bolso.

"Que estrangeiro bloqueado numa sala de inadmitidos pode apresentar estes documentos?" questionou à BBC Brasil o secretário-geral do Comitê Espanhol de Ajuda ao Refugiado, Mauricio Valente.

"O que está acontecendo aqui é uma manipulação política dos imigrantes. Este governo quer dar a imagem de que os estrangeiros são os responsáveis pelos gastos e saturação da Justiça".

O representante da Comissão de Imigração do Conselho Geral de Advocacia, José Ignácio Rodríguez, responsabiliza o governo madrilenho, que estaria forçando o tribunal de Justiça a pressionar os advogados, pela situação.

"[Os juízes] nos pressionam, colocam excessos de trâmites burocráticos, nos ameaçam com ter que pagar os gastos dos processos e até com multas em dinheiro. E ainda confundem a população com declarações maliciosas que deixam mal aos imigrantes que não tem como se proteger", disse Rodriguez à BBC Brasil.

Outro lado

O governo regional se defende. O secretario de Justiça da Comunidade de Madri, Francisco Granados, afirmou que "não existe nenhum motivo para que um estrangeiro tenha que apresentar menos requisitos do que um espanhol para receber defesa jurídica grátis".

A Secretaria de Justiça de Madri respondeu que os tribunais "apenas cumprem a lei, que é para todos" e critica a ação de advogados que estariam preferindo, segundo disse à BBC Brasil assessoria de comunicação da secretaria, "alargar indefinidamente os processos de apelação, mesmo nos casos em que os clientes já tenham sido expulsos".

Esta prolongação dos processos de defesa de imigrantes já deportados é outro ponto de discórdia entre advogados, políticos e juízes.

Para a Associação de Advogados de Madri, o atendimento gratuito é um serviço público garantido pela Constituição, assim como a obrigatoriedade de esgotar as vias de apelação. Mesmo que os imigrantes tenham saído do país, porque o recurso continua.

Em nota à imprensa, o Tribunal Superior de Justiça de Madri justificou as restrições aos advogados alegando que "em muitas ocasiões há apelações de defesa de causas sem sentido" porque as extradições são irreversíveis.

Barajas

No caso dos atendidos pela Justiça no aeroporto de Madri, os brasileiros seriam os mais prejudicados entre todas as nacionalidades, se a média de barrados em Barajas se mantiver.

Nos cinco primeiros meses de 2009, houve 4.064 expedientes de expulsão. Os primeiros da lista (873) eram brasileiros, seguidos por 529 paraguaios e 497 argentinos.

As associações de imigrantes temem que a restrição da Justiça possa atingir a turistas que não têm intenção de permanecer ilegalmente na Europa, como os universitários envolvidos na crise diplomática do ano passado entre Brasil e Espanha.

"Se tivermos governos como o brasileiro que reagiu às injustiças cometidas contra seus cidadãos com a reciprocidade, é possível contra-atacar essa pressão xenófoba. Se não, vamos ver muitos imigrantes sem atendimento a cada dia porque a política que a Espanha está conduzindo é de sufoco, para que não fique nenhum" afirmou à BBC Brasil, Antonio Alfonso Barber, presidente da Rede Acolhe, ONG que engloba 26 associações de imigrantes.


Fonte: Folha Online

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Grupo de 300 imigrantes ilegais chega ao sul da Itália; 1 morre

Um total de 300 imigrantes ilegais que navegaram por vários dias pelo Mar Mediterrâneo, em meio a condições adversas, chegaram nesta segunda-feira à Itália rebocados por embarcações do governo do país, que informou sobre a presença de um morto no grupo.

Segundo fontes da Capitania dos Portos da província de Catânia, na Sicília, sul do país, o corpo corresponde a um homem adulto, que viajava a bordo da embarcação havia vários dias, junto a cerca de 46 mulheres - quatro delas grávidas - e 29 crianças.

Os imigrantes ilegais foram escoltados ontem pelo petroleiro italiano Antignano, de águas maltesas para a Itália, onde hoje as autoridades do país se encarregaram do grupo, que chegou no porto de Pozzallo, no sul da Sicília.

Dez dos sobreviventes da travessia foram transferidos a um hospital próximo, devido às precárias condições de saúde que apresentavam.

Depois que as autoridades de Malta decidiram não intervir na ajuda, por considerarem que os imigrantes que não estavam em perigo, as italianas se encarregaram da situação e o navio "Antignano" forneceu comida e medidas de primeiros socorros ao grupo, até que a embarcação em que estavam foi escoltada por duas lanchas da Guarda Costeira da Itália.

União Africana adota convenção para proteger e assistir deslocados internos

Sexta Feira 23. Outubro 2009 12:00 Tempo: 3 days

O Alto Comissário António Guterres, junto com o Presidente de Uganda, Yoweri Museveni, e a Comissária Política da UA, Julia Dolly Joiner, no encerramento da cúpula. © ACNUR/ J.Akena
KAMPALA, Uganda, 23 de outubro (ACNUR) – Líderes africanos reunidos em Kampala, capital de Uganda, adotaram uma convenção comum nesta sexta-feira que garante proteção e assistência legal a milhares de pessoas deslocadas dentro de seus próprios países por conflitos ou calamidades naturais.
O presidente de Uganda, Yoweri Museveni, que liderou a cúpula especial de dois dias da União Africana (UA) sobre deslocamentos forçados, celebrou o pacto como “um acordo histórico para proteger e assistir nossos irmãos e irmãs, os deslocados internos”.
A nova convenção da UA para proteção e assistência dos deslocados internos na África é o primeiro instrumento legal do gênero no mundo. Define as obrigações que Estados, e mesmo grupos armados, têm de proteger e assistir seus próprios cidadãos.
O acordo histórico foi adotado unanimamente por 46 nações africanas, enquanto 17 chefes de Estado e governo e chanceleres assinaram o pacto, incluindo os presidentes de Uganda, Zâmbia, Zimbabwe e Somália e os primeiros-ministros de Burundi, República Central da África, Guiné Equatorial e Ruanda. A convenção ainda precisa ser ratificada por, no mínimo, 15 países.
Participantes comemoraram o resultado do encontro de quatro dias como uma grande conquista para o continente, que possui a maior população de deslocados internos do mundo.
O Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, António Guterres, afirmou em Kampala que “o acordo representa na prática o conceito de ‘responsabilidade de proteger’ (R2P, na sigla em inglês). Demonstra que a soberania nacional é plenamente compatível com a responsabilidade de proteger”. Ele acrescentou que a convenção serve como lembrete de que a responsabilidade de proteger seus próprios cidadãos é primeiramente dos Estados e que, quando este falhar, há uma responsabilidade coletiva africana de agir.

Por Melissa Fleming e Yusuf Hassan, em Kampala, Uganda
Fonte: ACNUR

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Deporting HIV-Positive Migrants Threatens Lives, Global Goals

fonte: HRW

(London) - National governments, in cooperation with international agencies and donors, should reconsider deportation policies for people living with HIV/AIDS, four HIV/AIDS and human rights groups said in a report released today.

The 27-page report, "Returned to Risk: Deportation of HIV-Positive Migrants," was prepared by Human Rights Watch, Deutsche AIDS-Hilfe, the European AIDS Treatment Group, and the African HIV Policy Network. It describes cases in South Korea, Saudi Arabia, the United Arab Emirates, South Africa, and the United States in which HIV-positive migrants were deported, and describes the need to develop policies guaranteeing uninterrupted treatment for this population.

"Migrants living with HIV are often explicitly excluded from treatment," said Katherine Todrys, researcher with the Health and Human Rights Division at Human Rights Watch. "If they are detained, they are often denied access to antiretroviral drugs, and then if deported they can't get care."

The groups called on governments and donors to ensure that HIV-positive migrants have access to life-saving antiretroviral therapy when detained and to ensure that, if deported, migrants are able to maintain access to treatment and care.

International human rights and refugee law has long prohibited deportations to a state where the person deported would be at real risk of being subjected to torture or other cruel, inhuman, or degrading treatment or punishment. National deportation procedures, however, are often insufficient or underdeveloped to protect the rights of people living with HIV against return to such conditions, the report's authors said. In addition, many countries fail to provide treatment for migrants living with HIV in immigration detention. Lack of continuity of treatment for migrants may lead to illness, premature death, or the development of drug resistance.

"Rather than protecting HIV-positive migrants from return to countries where treatment is unavailable, some countries are in fact deporting migrants because of their HIV status," said Peter Wiessner, of Deutsche AIDS-Hilfe. "Migrants are being returned to situations in which treatment and support are entirely unavailable."

The report documents:

  • In Saudi Arabia: mandatory HIV testing; detention for up to a year without access to medication; and deportation of HIV-positive migrants.
  • In the United Arab Emirates: deportation of 1,518 non-citizen residents infected with HIV; hepatitis types B and C; or tuberculosis in 2008.
  • In South Africa: the inability to continue treatment - amounting to a death sentence - for people living with HIV who are sent back to Zimbabwe.
  • In the United States: poor access to treatment in detention and harsh conditions or lack of access to medical treatment for some HIV-positive individuals who are deported.
  • In South Korea: mandatory HIV testing of migrants and the deportation of those found to be HIV positive, despite South Korea's international legal obligations and a recent Seoul High Court ruling that such deportation is not the most effective means of protecting public health.

"Governments have committed themselves to the goal of universal access to HIV treatment for all who need it by 2010," said Titise Kode of the African HIV Policy Network. "But with 192 million people - or 3 percent of the world's population - living outside their place of birth, ensuring migrants' and deportees' access to HIV treatment is absolutely essential to meeting this goal."

The report's authors called on governments to ensure that HIV-positive individuals awaiting deportation in detention have access to treatment and to re-examine the practice of deporting HIV-positive individuals to countries where treatment and social support structures are inadequate.

"Migrants face enormous risks when they cross borders," said David Hans-Ulrich Haerry, of the European AIDS Treatment Group. "But they shouldn't face a death sentence for living with HIV when we have effective treatment available and governments worldwide have pledged to provide universal access to antiretroviral medicine and have committed themselves to international treaties that guarantee migrants protection."

Novas barreiras na Europa “são ameaça à paz” adverte escritor italiano

O escritor italiano Claudio Magris lamentou hoje “a existência de novas barreiras na Europa que ameaçam a paz”, ao receber o Prêmio da Paz da Associação Alemã dos Editores e Livreiros, em Frankfurt .

“Hoje são outras fronteiras que ameaçam a paz, fronteiras por vezes invisíveis no interior das nossas cidades, entre nós e os imigrantes de todas as partes do mundo, fronteiras de que quase não nos apercebemos”, disse o autor ao receber o prestigiado galardão, na Igreja de S. Paulo, no último dia da Feira do Livro de Frankfurt.

Magris criticou as reações na Itália aos refugiados africanos que tentam chegar por mar ao seu país, considerando-as “histéricas e brutais”, advertindo que “uma fronteira não é um ponto de passagem, mas sim um muro, uma muralha contra os bárbaros, e que constitui um perigo de guerra latente”.

O germanista, de 70 anos, disse ainda que, “como patriota italiano”, espera que o seu país “não volte a ser pioneiro no sentido negativo”, lembrando que a Itália inventou o fascismo, embora depois “outros fossem muito mais ambiciosos a implementá-lo”.

O elogio a Magris foi proferido pelo historiador alemão Karl Schlögel, que afirmou que o escritor “deu à Europa confiança e beleza”, considerando a sua obra “trabalho de esclarecimento e simultaneamente paixão”.

Devido às suas convicções europeístas, Magris tem estado muito atento, “advertindo que a desilusão na Europa pode transformar-se de novo em ódio e desespero”, acrescentou Schloegel.

O presidente da Associação Alemã dos Editores e Livreiros, Gottfried Honnefelder, enalteceu também a personalidade europeísta de Magris, considerando-o “um observador atento, filólogo, germanista, escritor, poeta, nacionalista italiano e europeu empenhado”.

A associação justificou a atribuição do Prêmio da Paz 2009 a Magris com “os seus esforços literários para a convivência e ação comum das diferentes culturas europeias”.

Em 2008, o galardão foi atribuído ao artista plástico alemão Anselm Kiefer, que acaba de abrir um atelier em Portugal, e em anos anteriores a personalidades como Susan Sonntag, Juergen Habermas, Martin Walser, Jorge Semprun, Mario Vargas Llosa, Vaclav Havel ou Amos Oz, por exemplo.

Fonte: Açoriano Oriental

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

STF: Marco Aurélio promete voto do Battisti no dia 28

Fonte: Correio Braziliense

Diego Moraes

Publicação: 15/10/2009 13:13 Atualização: 15/10/2009 13:20


O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), prometeu nesta quinta-feira (15/10) finalizar seu voto sobre o caso Cesare Battisti no próximo dia 28. A tendência é que ele mantenha o posicionamento exposto no plenário da corte no primeiro dia de julgamento, em 9 de setembro, quando sinalizou ser contrário à extradição do ex-ativista italiano.

Na ocasião, o julgamento teve de ser suspenso por um pedido de vista de Marco Aurélio, quando o placar estava 4 a 3 pela volta de Battisti à Europa. "Todo o material sobre o caso já está no meu gabinete e agora vou abrir o embrulho. Devo finalizar o voto neste fim de semana, fazer a revisão na semana que vem e na quarta-feira da outra semana ele estará na bancada para que o presidente do Supremo (ministro Gilmar Mendes) agende a retomada do julgamento", afirmou o ministro ao Correio.

Até lá, o advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli, já terá assumido a vaga de ministro do STF em substituição a Carlos Alberto Menezes Direito, morto em setembro. A posse está marcada para o próximo dia 23.

Impasse
Cesare Battisti, 54 anos, tornou-se pivô de um impasse que coloca Brasil e Itália em lados opostos. Condenado à prisão perpétua no país de origem, ele foi considerado refugiado político pelo governo brasileiro em janeiro. Desde então, o governo italiano trava uma batalha pela extradição.

Líder de uma organização extremista batizada de Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), que fazia oposição ao governo da Itália na década de 70, Battisti foi condenado por quatro homicídios ocorridos entre 1978 e 1979. O julgamento terminou em 1993, mas o ex-ativista nunca cumpriu a pena. Fugiu para a França, onde viveu até 2004, quando o então presidente do país, Jacques Chirac, se colocou favorável à extradição.

O italiano fugiu novamente e veio parar no Brasil, onde a legislação proíbe a extradição de condenados por crimes políticos. Em março de 2007, Battisti foi preso no Rio de Janeiro e transferido para a Papuda, onde está até hoje. O ex-ativista nega a autoria dos crimes e afirma ser vítima de perseguição política. Desde que chegou ao país, Battisti já escreveu três livros para contar sua história.

O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão subordinado ao Ministério da Justiça, analisou o pedido de refúgio e decidiu negá-lo por 3 votos a 2, sob o argumento que não é possível comprovar a alegada perseguição política. A decisão do Conare, no entanto, foi revertida pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, que em 13 de janeiro de 2009 concedeu o refúgio por entender que o italiano passa por “fundado temor de perseguição por suas opiniões políticas”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou a decisão e chegou a rebater críticas do governo italiano dizendo que a decisão foi um ato de “soberania” do Brasil.

Relatório da ONU diz que imigrantes beneficiam economias nacionais

Fonte: DW


Documento das Nações Unidas pede diminuição de barreiras para a imigração e coloca Brasil no 75° lugar no ranking internacional de qualidade de vida.


Migrantes exercem efeitos benéficos sobre as economias tanto dos países que os recebem como das nações de origem. A migração estimula a produtividade, não contribui para aumento do desemprego nem faz os trabalhadores nativos perderem seus empregos. As conclusões são de um relatório produzido para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e apresentado nesta segunda-feira (5/10).

Com o título Ultrapassar barreiras: mobilidade e desenvolvimento humanos, o documento reivindica a adoção de medidas contra a discriminação de imigrantes e uma diminuição das barreiras para a imigração.

O fluxo de pessoas traz, segundo o parecer, benefícios tanto para as regiões de origem quanto para as de destino. A análise faz parte do Relatório de Desenvolvimento Humano publicado anualmente pela ONU.

Tendo a migração como tema central desta edição, o documento revela que a maioria dos movimentos migratórios no mundo não ocorre entre países em desenvolvimento e desenvolvidos. A maior parte das migrações é interna, ou seja, se dá dentro dos próprios países.

Conforme o relatório, cerca de 740 milhões de indivíduos são migrantes internos, número quase quatro vezes maior que o de migrantes internacionais. Destes, somente pouco mais de um terço (ao todo, quase 70 milhões de pessoas) se deslocaram de uma nação em desenvolvimento para uma desenvolvida. A maioria dos 200 milhões de migrantes internacionais se mudou de um país desenvolvido ou em desenvolvimento para outro na mesma condição.

Refugiados

Segundo as Nações Unidas, 14 milhões de refugiados vivem fora de seu pais nativo, o que corresponde a cerca de 7% dos imigrantes no mundo. A maioria permanece próxima ao país de onde emigraram. Eles vivem geralmente em campos de refugiados, até que as condições em suas pátrias permitam o retorno.

Entre os refugiados, a maioria espera o retorno aos seus países em campos próximos às fronteiras. Cerca de 1 milhão de indivíduos procuram anualmente exílio em países desenvolvidos. O número de migrantes obrigados a se transferir dentro de suas fronteiras nacionais, de cerca de 26 milhões, é, entretanto, sensivelmente maior.

Cidadãos de países pobres possuem uma menor mobilidade, conforme o relatório. A parcela de africanos que deixa o continente em direção à Europa, segundo o texto, é de menos de 1%. A cota de migrantes internacionais entre a população mundial permaneceu estável nos últimos 50 anos, correspondendo a 3%.

Os migrantes também se beneficiam da migração. Conforme o relatório, cidadãos dos países mais pobres conseguem ganhar 15 vezes mais, em média, após emigrar para um país desenvolvido. A cota de escolaridade é duplicada, enquanto a de mortalidade infantil passa a ser cerca de 16 vezes menor.

Barreiras

Barreiras para impedir a entrada de imigrantes são cada vez mais comuns. O relatório ressalta que muitos países tentam atrair pessoas com melhor educação buscando mão-de-obra menos qualificada somente em determinados períodos. Esses trabalhadores são, posteriormente, pressionados para voltar a suas regiões de origem. Hoje, cerca de 50 milhões de pessoas vivem irregularmente no exterior, de acordo com o relatório.

O documento reivindica uma maior consciência com relação aos direitos dos imigrantes, para que a xenofobia possa ser combatida. Migrantes devem ter acesso a direitos jurídicos e à assistência básica. A liberdade de decidir onde se deseja morar também deve ser vista como um elemento chave da liberdade humana, sublinha o texto.

O relatório pede, ainda, uma reforma da política de imigração. "Ainda hoje a migração é um problema controverso e que exige análise e reformas por toda a União Européia", afirmou Jeni Klugman, principal responsável pelo documento. "Esperamos que nosso relatório possa influenciar esse debate e ajude a revelar a influência geralmente benéfica da migração", completou.

Desenvolvimento Humano

No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) espécie de ranking internacional de qualidade de vida publicado no mesmo relatório, o Brasil ocupa a 75ª posição, com desempenho estável em relação ao ano passado.

A Noruega lidera a lista, seguida de Austrália e Islândia. Nos últimos lugares estão Serra Leoa, Afeganistão e Níger. A Alemanha está no 22° lugar de 182 países. O IDH leva em consideração fatores como riqueza, expectativa de vida, chances de educação e padrão de vida.

MD/dpa/afp/ap
Revisão: Alexandre Schossler