segunda-feira, 5 de setembro de 2011

ONU tenta lidar com desnutrição e sarampo em campos de refugiados somalis e alerta para superlotação

A ONU anunciou nesta sexta-feira, 2, que vai intensificar a distribuição de alimentos nos campos de refugiados somalis na Etiópia, após comprovar que a taxa de desnutrição aguda aumenta de forma alarmante, particularmente entre as crianças.

Os novos refugiados chegam cada vez em piores condições nutricionais, o que foi confirmado por exames médicos, disse em entrevista coletiva o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), Adrian Edwards.

Edwards já havia dito, em setembro, que "as taxas de mortes estão alcançando níveis alarmantes" no acampamento de Kobe, um dos quatro centros do "complexo Dolo Ado", no sul da Etiópia.

Ao todo, 25 mil pessoas vivem no acampamento, onde "um possível surto de sarampo, unido às altas taxas de desnutrição severa, parecem ser as principais causas das mortes", segundo o funcionário. Edwards explicou que em Dolo Ado foram confirmados 148 casos de sarampo e 11 mortes pela doença.

"Esta combinação fatal causou historicamente taxas similares de óbitos em crise alimentícias prévias na região", assinalou o porta-voz do Acnur, segundo quem terá início de forma "imediata" um plano de vacinação em todos os campos.

A primeira fase de vacinação já foi completada no acampamento de Kobe, incluindo todas as crianças entre seis meses e 15 anos, e o programa será estendido. Christopher Haskew, analista do Acnur em saúde pública, indicou que o sarampo "é altamente contagioso e pode ter efeito devastador nas crianças, especialmente nas mal alimentadas".

Enquanto isso, a 250 quilômetros ao norte de Dolo Ado, o êxodo de somalis que fogem da seca e da guerra continua constante, com a chegada de 17,5 mil novos refugiados nas últimas seis semanas às regiões etíopes de Gode e Afder. A maioria dos refugiados vem de regiões somalis e 95% são mulheres e crianças pequenas, "a maioria em situação nutricional e de saúde precária", como destacou Edwards.

Os membros da Acnur descreveram a situação geral como "desesperadora" e fizeram uma nova chamada para o envio de ajuda humanitária, já que essa área da Etiópia não tem os recursos necessários para assimilar tamanho êxodo.

O governo etíope respondeu com o envio de comida para alimentar essas pessoas durante o período de um mês, mas advertiu que as condições de alojamento e de assistência sanitária são igualmente dramáticas. "A falta de refúgio e de ajuda sanitária, a pouca higiene e a superlotação poderiam gerar diarreias severas e sarampo", advertiu o porta-voz do Acnur.

Uma média de dez crianças com menos de cinco anos morrem diariamente nos acampamentos da Acnur na Etiópia. Edwards informou que em quatro assentamentos de refugiados neste país foi comprovado que as crianças somalis apresentam taxas de desnutrição aguda que varia entre 10% e 19%. O organismo considera que uma taxa de 1% reflete já uma situação de emergência.

Em uma tentativa de evitar que a situação piore, as agências humanitárias da ONU concordaram em aumentar os pontos de distribuição de alimentos nos acampamentos, abrir novos centros de alimentação terapêutica e adotar medidas adicionais para garantir que as crianças desnutridas recebam os complementos nutricionais necessários.

Trabalhadores comunitários irão de barraca em barraca, onde os refugiados estão abrigados, para buscar as crianças desnutridas que ainda não estão inscritas para receber o tratamento. Apesar destas ações, Edwards reconheceu que o mais provável é que as taxas de desnutrição se mantenham altas nas próximas semanas até que a situação se estabilize.

O porta-voz disse que na segunda-feira começará o ano letivo no campo de refugiados de Dabaab (Quênia), o maior do mundo com 400 mil residentes - a maioria deles somalis - e onde 40 mil crianças se preparam para começar as aulas, embora os pequenos em idade escolar sejam na realidade, 156 mil.

Só neste ano chegaram a Dadaab 154 mil novos refugiados, dos quais a metade são crianças. Segundo os cálculos do Acnur, existe um professor - que na maioria dos casos também é refugiado - para cada 100 alunos.

Fonte: Estadão

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